Nova York: Pandemia produz 1,5 milhão de famintos na ‘capital do mundo’

fome em nova york

No início de março, quando a pandemia do coronavírus se alastrava impiedosa pelos Estados Unidos, muitos agricultores e criadores no estado de Nova Iorque foram obrigados a se desfazer da produção após o fechamento compulsório das lojas e restaurantes que abasteciam antes da quarentena. Simultaneamente, os funcionários desses estabelecimentos perderam a renda e se viram obrigados a recorrer aos bancos de comida para sobreviver. 

Para amenizar o desperdício e a fome — duas realidades diametralmente relacionadas — a senadora democrata por Nova Iorque, Jessica Ramos, planejou um circuito de abastecimento sem intermediários para alimentar milhares de moradores do Queens, seu distrito na periferia da cidade e um dos mais atingidos pela Covid-19, com a distribuição gratuita de mais de 16 mil quilos de alimentos por semana. 

Os agricultores cobrem os custos da produção e recebem um lucro irrisório, enquanto a comunidade volta a ter o que colocar na despensa. Na entrada do espaço onde a distribuição é feita, Ramos conta que há também uma geladeira “para gente do bairro pegar a comida ou, para quem puder, deixar um pouco lá”.

Senadora Jessica Ramos

Em uma cidade com nove milhões de habitantes, cerca de 1,5 milhão depende hoje da distribuição de comida para sobreviver. Trata-se de um novo tipo de pobreza causada pela crise do coronavírus, que aumentou ainda mais as já existentes filas de desvalidos para conseguir alimentos, mas que, em algumas regiões, não tinha tamanha proporção.

Nos últimos nove meses, os bancos de alimentos da cidade receberam em torno de 12 milhões de visitas, 36% a mais que no mesmo período do ano passado, segundo a ONG City Harvest. A procura por comida gratuita é tamanha que foi criado um aplicativo para pesquisar despensas comunitárias por regiões da cidade. Um estudo da Universidade de Columbia aponta que oito milhões de americanos ingressaram na linha da pobreza a partir de maio, mês em que se encerrou o plano de assistência aprovado pelo Congresso. E não se tratam de moradores de rua, e sim de uma legião de pessoas que tinham empregos precários e que hoje, quando muito, são vendedores ambulantes com renda insuficiente para as despesas da família. Há também muitos imigrantes que, pela falta de documentos, nunca puderam ter acesso ao auxílio federal.

Spencer Platt / AFP

Além de movimentos localizados como o da senadora Ramos, grande parte das ações fica a cargo de organizações humanitárias ou de caridade, muitas delas vinculadas a ordens religiosas e acostumadas com as desigualdades da ‘capital do mundo’. “Ainda que a pandemia seja uma novidade, ela só agravou um déficit estrutural já existente e ignorado por muito anos. A Covid só escancarou tudo isso”, resumiu a senadora. Em ano de pandemia, os Estados Unidos revelaram tristes semelhanças com o Brasil, praticamente todas no terreno da distopia.

Chinese (Simplified)EnglishFrenchItalianPortugueseSpanish