Em ano de pandemia, Feira Naturebas tem sua maior edição

Mesmo num ano superlativo em dificuldades, a Naturebas – primeira e única feira do país dedicada aos vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos – assumiu proporções ainda maiores em 2020. Foi um mês inteiro de evento (novembro), desta vez quase que totalmente digital. Participantes assistiram (pela tela) a apresentações de todos os expositores e participaram de bate-papos interativos. 

A Naturebas nasceu em 2013, dentro da Enoteca Saint VinSaint (SP), pelas mãos de Lis Cereja, com a ideia de aproximar o consumidor final do produtor, sem intermediários. A oitava edição contou com mais de  300 apresentações, de mais de 15 países diferentes, e cerca de 2500 participações (virtuais e ‘reais’), número recorde desde que foi criada. O evento marcou também o lançamento oficial da FreeRange.doc, série documental que mapeia o Brasil a partir de seus produtos agrícolas regionais, dirigida por Fabio Knoll e por Lis Cereja.

Aliás, batemos um papo com Lis – chef, enóloga, empreendedora, ativista, enfim,  personagem incontornável nas discussões em torno de sustentabilidade no Brasil  – sobre a Naturebas em ano de isolamento, e o que a pandemia pode ter deixado de lição pra gente em relação aos hábitos (transformadores) do cotidiano.

Lis Cereja

Natureba é um termo meio jocoso. Quando você passou a utilizá-lo lá em 2008, dá a impressão de que foi mais pela ironia, já que anos atrás muitas pessoas ironizavam esta abordagem para o universo dos vinhos. Em 2020, essa realidade mudou? Suas intenções mudaram?

Sim, a gente sempre usou o termo Naturebas para brincar com o próprio preconceito contra os vinhos naturais, orgânicos e biodinâmicos. Continuamos com a mesma intenção irônica de fazer com que as pessoas percebam os próprios preconceitos e tentem pensar “pra fora da caixinha”. Ou da garrafa de vinho, no caso. Em 15 anos, muita coisa mudou no mercado de vinhos no Brasil. Hoje em dia não é mais “coisa de gente doida” falar em vinho natural, mas ainda estamos engatinhando no movimento. 

A Naturebas começou em 2013. Em paralelo com o realidade ‘lá fora’, numa linha do tempo, como você enxerga os caminhos e a evolução da feira ao longo desses anos? 

Foram estratosféricos. Começamos com 100 pessoas dentro da Enoteca e hoje são mais de duas mil, em dois dias de evento. Hoje a Naturebas é a maior feira de vinhos naturais da América Latina. 

Qual foi a grande característica da Naturebas num contexto de pandemia? Como você avalia o resultado de acordo com a realidade de 2020?

Num contexto de pandemia, além do momento propício para reflexão, tivemos todos os entraves do isolamento. Isso fez com que a gente pensasse em maneiras de extrapolar o óbvio e criamos uma plataforma totalmente do zero para aliar a feira no mundo ‘real’ a uma feira no mundo ‘virtual’. Estimulamos a conexão entre as pessoas do mundo inteiro, mesmo em um momento de isolamento, além de criar conteúdos voltados à sustentabilidade, tão importantes para o momento presente. 

Com a pandemia, viu-se nas redes sociais uma profusão de padeiros caseiros, ‘produtores’ de fermentados e conservas do lar… Enfim, vimos não só uma valorização maior dos produtores e fornecedores locais, como também as pessoas literalmente colocando a mão na massa.  Você acha que houve uma aproximação maior do natural? 

Com certeza. A pandemia veio para mostrar que tomamos o caminho errado como espécie – e tudo o que acontece hoje em dia, esse “fim do mundo” do mundo que a gente conhece, é só uma reflexo do que estamos fazendo com a natureza, conosco, com os outros – que no fundo são a mesma coisa. Então sim, na verdade toda a “modinha”, a “tendência” sustentável faz parte de uma nova onda de comportamentos, e que passa pela remodelação dos padrões de consumo e de produção mundiais.

Sempre se fez vinho natural – sem veneno e aditivo –  na história da humanidade, até que veio a industrialização. Como resposta, aconteceu o movimento dos vinhos naturais na França, nos anos 1980, uma articulação de resistência à padronização e massificação dos vinhos. Passados quase 40 anos, na sua opinião, hoje é mais importante resistir ao quê?

Bom, na verdade, por mais que o movimento tenha começado na década de 80, como movimento de resistência, o grande boom começou mesmo depois dos anos 2000. 

O vinho natural é um estilo de vida, não um estilo de vinho. Então continua muito moderno no sentido de reconectar a gente com os ciclos e ritmos da natureza, com uma vida mais próxima da terra, mais consciente, menos industrializada e padronizada. 

Ainda temos muito chão para mudar nossos padrões de produção e consumo como sociedade, mas essas movimentações fazem parte, justamente, dessa nova onda maior, resistente ao sistema industrial que criamos no século XX.

Então hoje em dia, mais do que nunca, o vinho natural continua fazendo sentido. Não pensando somente no produto em si, mas no que o movimento representa.

E os números nestes oito anos de Naturebas?

1ª edição: 100 visitantes e 17 expositores.
2ª edição: 200 visitantes e 25 expositores.
3ª edição: 400 visitantes e 40 expositores.
4ª edição: 400 visitantes e 58 expositores.
5ª edição: 600 visitantes e 64 expositores.
6ª edição: 1000 visitantes e 104 expositores. 
7ª edição: 1800 visitantes e 127 expositores.
8ª edição: 2500 acessos virtuais/ reais, 34 degustações ao longo de novembro; 367 apresentações na plataforma, entre feira virtual e conteúdo.

Um belo crescimento!

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