Comedores da terra

A indústria de fertilizantes deixa um rastro de destruição no sul dos Estados Unidos

A rocha fosfática possibilitou que os agricultores parassem de usar fertilizantes orgânicos, lançando-nos na era moderna da agricultura. Mas aqueles que vivem próximos de epicentros de mineração temem que as  enormes torres de lodo radioativo literalmente desabem em seus quintais.

No final de 2018 um agricultor da região de St. James, na Louisiana, iniciou a colheita final da safra de cana-de-açúcar. As hastes verdes, uma vez colhidas, revelavam uma topografia inesperada ao fundo: uma pequena colina, com três metros de altura, tinha ‘nascido’ em meio ao chão que sempre foi  plano.

A terra em questão fica ao norte de uma colina muito maior – e proporcionalmente mais ameaçadora. A Gypsum Stack No. 4  é alta o suficiente para ser incluída em mapas da aviação federal americana. Do solo, o monte é visível a uma distância de cinco quilômetros: um muro de areia branca e fina, com mais de 60 metros de altura, em um lugar onde a elevação natural nunca ultrapassa os 30 metros. A No. 4  é a maior de um conjunto de pilhas que, juntas, cobrem 395 hectares, numa área equivalente ao Central Park. Elas são construídas a partir de fosfogesso, um subproduto radioativo emitido por uma fábrica de fertilizantes de fósforo nas proximidades.

O açúcar do agricultor não poderia existir sem fósforo. Aliás, nenhuma vida pode: o elemento é um componente essencial do DNA, e os materiais celulares não podem crescer sem um suprimento constante. A Mosaic Company, proprietária da Stack No. 4, se autodenomina “o maior produtor de fosfatos concentrados acabados do mundo”. A missão da empresa é “ajudar o mundo a cultivar os alimentos de que precisa”, o que é conseguido através da extração de rocha fosfática e decapagem química ácida em uma forma de fósforo facilmente absorvido pelas plantas. Mesmo para o mais leigo, a frase anterior, com termos como ‘química’ e ‘ácida’, não soa nada positiva. Certo?

Sem dúvida, é um processo que produz muita riqueza: o ‘produto comercializável’ que emerge das minas de fosfato dos EUA foi avaliado em US $ 1,8 bilhão em 2018. Também resulta em muito desperdício. Grande parte da rocha processada é empilhada em gypstacks, como a pilha de St. James, que normalmente acolhem o dobro do armazenamento usual das ditas águas residuais. Após absorver os metais e produtos químicos contidos no fosfogesso, essa água se torna ácida e radioativa; quando ela vaza para vias navegáveis, sabe-se que essa pasta macabra causa mortandade expressiva de peixes. Em 2018, quando aquele produtor de cana de St. James ‘descobriu’ aquele relevo repentino atrás da sua plantação, a Gypsum Stack No. 4 já continha mais de 700 milhões de galões desse lodo tóxico. 

Os engenheiros da Mosaic confirmaram rapidamente a fonte da elevação: uma parte da parede norte da Stack No. 4 estava, sob o peso dessa água residual, curvando-se para fora, pressionando o solo adjacente. A parede daquela imensa pilha de fosfogesso movia-se diariamente, um problema antigo que simplesmente havia escapado à atenção. De repente, uma ação de emergência foi necessária. Afinal, represada, a pilha pode vazar ou até explodir, liberando a lama contaminada nos chamados bayous, que formam uma rede navegável de milhares de quilômetros. 

Em um ecossistema natural, o fósforo, juntamente com outros nutrientes, é reciclado. Quando uma planta ou animal morre e se decompõe, o fósforo em suas células retorna ao solo, onde pode ser absorvido por uma nova geração de plantas. Os primeiros agricultores aprenderam a conservar nutrientes coletando esterco e estrume de pássaros e outros resíduos de animais. “Até 100 anos atrás, era um ciclo fechado”, diz Dan Egan, jornalista norte-americano que está trabalhando em um livro sobre o fósforo. “As coisas morriam, deterioravam, eram absorvidas,  cresciam, morriam… em um ciclo contínuo. E então, nós meio que transformamos tudo em uma linha reta”.

À medida que a população humana se expandiu, a produção de alimentos precisou acompanhar o ritmo. Em princípio, os agricultores aderiram ao fósforo biótico como fertilizante. Ou seja, utilizavam o guano – adubo proveniente de excrementos de aves e morcegos – escavado em ilhas distantes, que era uma importante mercadoria internacional em meados do século XIX. Na mesma época, os cientistas descobriram que a rocha fosfática – que quase sempre inclui matéria orgânica antiga, comprimida ao longo de séculos – também era uma fonte adequada de fertilizante. Então, como o guano ficou insuficiente, começaram a escavar a terra. Essa é a gênese do problema.

Boyce Uphold

Hoje, quase todos os alimentos consumidos pelos americanos começam em fazendas onde o solo é tratado com fertilizantes produzidos comercialmente. O chão dessas fazendas é uma espécie de concha vazia, tamanha a retirada de recursos. A comida da sociedade ianque, portanto, depende de refinarias e rochas mineradas, tornando-os, como apontou o Centro de Interpretação do Uso da Terra, geofagistas: “pessoas que comem a terra”.

Saindo da Lousiana em direção ao Bone Valley, na Flórida, descobre-se que tanto o fosfato quanto os fósseis sempre foram artigos de abundância na geologia local. O Vale do Osso sempre foi um lugar lamacento, cheio de rios e estuários, coberto ocasionalmente pelo mar. Esses sedimentos ajudaram a absorver materiais orgânicos no solo, criando uma das mais ricas reservas de fosfato do país, uma rocha sedimentar que contém altos níveis de fósforo – também existem minas ativas de fosfato na Carolina do Norte, Idaho e Utah. 

Em 1881, um pesquisador que viajava pelo rio Peace observou suas pedras de fosfato. Bone Valley era um território acidentado na época. Riachos e zonas úmidas atravessavam florestas de carvalhos e pinheiros e  bosques de palmeiras. Antes do final do século, uma cidade em expansão chamada Mulberry havia florescido para atender à nova onda de empresas de mineração. Em 1920, Bone Valley fornecia 90% do suprimento mundial de fosfato e continua sendo a maior fonte do país atualmente.

O museu em Mulberry – uma cidade bucólica de quatro mil habitantes que não tem a Main Street, mas possui um Boulevard de Fosfato – é financiado pelos contribuintes, embora receba uma pequena provisão anual da Mosaic. É importante se compreender e resumir, em termos gerais, o processo de mineração. As linhas de arrasto – o maior equipamento de movimentação de terra do mundo, de acordo com a Mosaic, com baldes do tamanho de um quarto – removem a camada superior do solo para alcançar a matriz de fosfato que fica a cerca de 30 pés abaixo da superfície. Essa matriz é movida para um poço, encharcada de água e depois canalizada como lama para uma planta de beneficiamento de minério; e através de várias etapas, a rocha fosfática é separada da água, da areia e da argila. Então, a argila barrenta que é puxada para fora da matriz de fosfato é bombeada para lagoas de decantação, onde a água pode subir lentamente até o topo para ser sugada e usada novamente. Depois de alguns anos, as lagoas de assentamento – que ocupam cerca de metade das propriedades mineradas – são endurecidas, embora sob a crosta superior o solo  permaneça extremamente vulnerável como um farelo.

Boyce Uphold

Aldeias espalhadas pelo Condado de Polk foram construídas pelas empresas de mineração para servir seus trabalhadores no início do século XX. Algumas décadas depois, porém, em meio ao declínio das reservas e desafios econômicos, muitos desses vilarejos foram abandonados, às vezes da noite para o dia. Agora, não passam de cidades fantasmas.

Embrenhando-se pelas estradas do ‘interior mineiro’ dos EUA, o que se percebe para além dos acostamentos são extensas minas mortas – fortificações elevadas de 15 metros de altura, construídas para prender a água liberada pelas linhas de reboque. A visão é de um território alienígena: a terra outrora plana tornou-se uma paisagem rochosa escarpada. A água, manchada de algas, assume tons lúgrubes de azul e verde.

Boyce Uphold

Até os críticos da mineração admitem que há uma beleza estranha nessas formas de relevo. Dennis Mader, diretor executivo da ONG People for Protecting Peace River (3PR) costumava acampar com amigos em minas abandonadas. “Era como uma terra de ninguém”, disse ele à Sarasota Magazine. A Mosaic possui um luxuoso resort de golfe construído no topo de uma antiga mina ao sul de Mulberry, que trata as piscinas e colinas artificiais como uma, digamos, ‘útil excentricidade’. A título de ilustração, o primeiro tee – suporte usado para apoiar a bola num campo de golfe – fica no topo de uma duna de 30 metros, considerada uma ‘relíquia da mineração’.  O resort foi inaugurado em 2014, no mesmo ano em que a última mina no Condado de Polk foi fechada.

“Mais de 700 quilômetros quadrados da Flórida estão perdidos para o setor de mineração”, disse Rachael Curran, advogada do Centro de Diversidade Biológica, ao jornalista Boyce Upholt (The Counter). Agora, outros 2072 quilômetros  quadrados também estão ameaçados.

As reservas do Condado de Polk estão esgotadas, mas a mineração migrou para o sul do estado. Atualmente, a Mosaic – que se formou em 2004 como uma fusão entre as divisões de fertilizantes de duas empresas existentes e agora é a única que explora a região – tenta expandir suas atividades para quatro novas áreas em três municípios de Bone Valley. Entre essas propriedades, estão mais de 4850 hectares de pântanos que abrigam 17 espécies ameaçadas de extinção, incluindo a pantera da Flórida e a índigo oriental, espécie mais longa de serpente do continente. “Talvez as gerações futuras nunca saibam dos animais que estiveram por aqui”, afirma Brooks Armstrong, presidente da 3PR.

A recuperação das minas na Flórida é obrigatória desde 1975. Os poços são reabastecidos com restos de areia e, em seguida, a sobrecarga é espalhada de volta ao topo. As lagoas de decantação de argila, no entanto, têm pouca utilidade após a restauração, devido à fragilidade do solo. Cerca de dois terços da terra ‘arrasada’ pela mineração no estado ‘parece’ ter sido recuperada desde 2015, servindo agora como pasto ou parques, ou até ao surreal resort da Mosaic. Entretanto, não há tentativa de devolver ao solo e à hidrologia subjacente o seu antigo ecossistema. Estudos indicam que, em comparação com as terras não mineradas, minas recuperadas reduziram drasticamente a biodiversidade. Brooks Armstrong aprendeu a identificar o que fatalmente acontece com essas áreas: elas quase sempre são colonizadas por cogongrass (Imperata cylindrica), uma planta agressiva e invasora que, devido a sua capacidade de espantar outras espécies, foi designada pelo governo dos EUA como a sétima pior erva daninha do mundo.

O 3PR, juntamente com outros grupos ambientais locais, está trabalhando com o Centro de Diversidade Biológica em uma ação que interromperia a expansão da mineração nas novas propriedades. O processo alega que o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA violou várias leis ambientais ao conceder licenças para as minas. A declaração de impacto ambiental do Corpo observa que as minas terão um impacto ‘significativo’ no meio ambiente, mas que deve ser revertido por meio da recuperação de terras. Os grupos ambientalistas perderam a ação e agora consideram a possibilidade de recorrer novamente, o que poderia levar o caso à Suprema Corte. 

Todos estes danos não decorrem propriamente da mineração, mas do que acontece depois que a rocha sai da mina: o processamento químico. A rocha fosfática é enviada para as plantas onde é tratada com ácido sulfúrico, produzindo ácido fosfórico, que por sua vez é tratado com amônia para criar um fertilizante solúvel em água. Para cada tonelada de ácido fosfórico, esse processo produz cinco toneladas de sulfato de cálcio, ou fosfogesso, que é despejado em pilhas cada vez maiores, como a nº 4.  de St. James.

Boyce Uphold

Na década de 1980, um porta-voz da indústria chamou essas gypstacks de “pirâmides da Louisiana”. Na época, o The New York Times estimou que elas tinham de nove a 15 metros de altura. Preocupado com o fato de os solos pantanosos serem muito frágeis para suportar pilhas mais altas, um processador local começou, com a permissão da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos), a despejar até oito mil toneladas de fosfogesso por dia diretamente no rio Mississippi. Na época,  os ambientalistas se opuseram, e o Estado proibiu a prática. A indústria de fertilizantes começou, então, a buscar usos comerciais para o gesso, como por exemplo empregá-los nos leitos das estradas. Mas, devido à natureza radioativa do material, em 1989 a EPA acabou proibindo qualquer uso externo. A única opção passou a ser empilhar o pó no local. Quando as pilhas crescem muito, geralmente são ‘cobertas’ com terra ou plástico para limitar a quantidade de radiação liberada no ar e na água. A pilha nº 4 é, como o próprio nome indica, a quarta construída nas instalações da St. James. Ela entrou em uso pela primeira vez em 1993, e agora tem mais de 60 metros de altura.

No final do ano passado, grupos da região formaram a Coalizão Contra o Beco da Morte, organizando protestos e entrevistas coletivas ao longo de um trecho do Mississipi onde os moradores, em geral negros e pobres, estão cercados por plantas petroquímicas. Agora, eles vivem com medo de mais uma ameaça: as paredes das instalações podem estourar e derramar água tóxica literalmente em seus quintais. “São cinquenta anos de um desastre iminente, prestes a acontecer a qualquer momento “, alertou um antigo morador. 

Se a água romper as barreiras, não será a primeira vez. As 25 gypstacks da região – que juntas contêm mais de um bilhão de toneladas de fosfogesso – falharam várias vezes, algumas com consequências desastrosas. Em 1994, um poço se abriu sob uma pilha perto de Mulberry, jorrando água tóxica para o aquífero subjacente. Em 1997, outra parede desmoronou, despejando cerca de 50 milhões de galões de águas residuais no rio Alfia. Em 2004, os ventos de um furacão provocaram ondas que quebraram em um dique no topo de uma pilha, liberando 65 milhões de galões. O último incidente ocorreu em 2016 com outro poço aberto em Mulberry, drenando 215 milhões de galões. Por quase três semanas, a Mosaic omitiu a informação do desastre que acabara de acontecer.

A EPA, juntamente com os departamentos estaduais de qualidade ambiental da Louisiana e da Flórida, processou a Mosaic em 2015, alegando que os resíduos haviam sido misturados ilegalmente em seis plantas nos dois estados. Depois de descobrir o movimento da pilha nº 4, no início de 2019, a Mosaic alertou as autoridades e começou a bombear água para fora da lagoa. Em maio, a Mosaic pediu permissão para usar aeradores que pulverizam gotículas de água residual no ar, acelerando a evaporação e aumentando a área da superfície. O Departamento de Qualidade Ambiental da Louisiana negou a solicitação, embora em setembro a empresa tenha apresentado uma outra, revisada, para as permissões necessárias. Mas a empresa foi além.  Em dezembro, a Mosaic pediu permissão para tratar a água e despejá-la diretamente no Mississippi. Ambas as aplicações ainda estão pendentes, de acordo com a empresa.

Depois que o fertilizante final sai de uma planta de processamento, ele entra na cadeia de suprimentos, onde viaja do armazém para a loja e, de lá, para o campo. Parte desse fósforo é absorvido pelas plantas, que são absorvidas pelos animais – incluindo os humanos – e assim as rochas se tornam ‘parte de nosso corpo’. Os agricultores têm outras alternativas aos fertilizantes com fósforo – como esterco, guano, farinha de ossos ou até urina humana. Mas a rocha fosfática é tão onipresente, que as fazendas orgânicas também a utilizam de forma não processada. Dentro da indústria, há um ponto de discussão padrão: não há como alimentar o mundo sem minerar essa rocha. Será? 

Os agricultores dos EUA despejam mais de quatro milhões de toneladas de fósforo em seus campos a cada ano, muito mais do que as plantas são capazes de absorver. Segundo algumas estimativas, até 40% são levados a rios, lagos e oceanos, onde causam a proliferação maciça de algas. As consequências, obviamente, tendem a ser terríveis: neste verão, todas as praias do Mississippi foram fechadas por  semanas devido à presença de cianobactérias. Como as temperaturas mais quentes promovem o crescimento das algas, a situação pode piorar à medida que o clima esquenta. Mesmo que o uso de fertilizantes diminua, a proliferação de algas persistirá por anos. James Elser, cofundador da Sustainable Phosphorus Initiative da Universidade do Arizona, indica que a maioria do fósforo que entra no Lago Erie foi pulverizada anos atrás, mas permanece no solo que gradualmente leva aos rios locais. Segundo Elser, “focar apenas no sistema agrícola não é suficiente. É preciso redesenhar todo o sistema alimentar”. 

E, acima de tudo, agir seriamente antes que seja tarde. O Brasil, a julgar pelas tragédias de Mariana e Brumadinho, é um exemplo macabro da conta que um  país – e sua população –  são obrigados a pagar em função de omissão,  imprudência e impunidade. 

Fonte: The Counter (por Boyce Upholt)

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