Quando o mato vira casa

Alice Lutz

A realidade de restrições e transformações em 2020 no contexto do coronavírus leva a uma analogia instintiva, até um pouco óbvia: cada pessoa tem a sua  ‘pandemia particular’. Reviravoltas na vida, turbulências profissionais, perdas, momentos de transição, impasses. A crise dentro da crise. Alice Lutz teve a sua em 2017. A carioca de 33 anos sedimentou carreira no audiovisual, de assistente a coordenadora de produção. Depois, pavimentou trajetória na TV Globo, até se tornar diretora do extinto Esquenta, programa de Regina Casé que fez história na grade da emissora. No auge, resolveu se repensar. E mudou tudo. 

Revolvendo as próprias entranhas, ressignificou o que sempre esteve ali. Foi educada na natureza, numa fazenda de 1887 fortificada pela Mata Atlântica imaculada na Serra da Bocaina. Pasto molhado, cheiro de terra, marca de gado, ribeirinho encachoeirado, passarinho cantar no mato. Tudo isso foi seminal na formação dela. E por mais que esta qualidade de memória nos escape de certa maneira no curso da vida, ou permaneça ali adormecida em algum escaninho da alma, certa hora o elo se refaz.

Maravilhas São José por Alice Lutz - Food Forum

No caso de Alice, por meio de estratagemas do destino. Uma década atrás, o pai designer que faz do mato cenário para experimentos artísticos, adquiriu, na mesma Bocaina, o sítio São José. A vontade de realizar coisas ali e as reflexões sobre desperdício tomaram-na gradualmente. Caiu uma ficha! A outra cairia por influência do avô materno, também um homem de televisão e grande cozinheiro. E assim, o gradual se tornou imperativo.

Alice rompeu e reconectou-se. Tudo ao mesmo tempo. Enquanto a TV ficava pra trás, emergia uma cozinheira ecologista com algumas (poucas) certezas na matula da consciência onde fica o tal propósito: alimento, ancestralidade e sustentabilidade como pilares para a preservação da vida e do processo civilizatório. Criou a ‘Maravilhas São José’, ao mesmo tempo marca e epifania, para reverberar discursos e produzir comida a partir dos ares e cultivares do sítio. Aí veio a pandemia do mundo, e o ímpeto por uma mudança ainda mais radical se impôs. A partir daqui, ela mesma conta. 

2020 – Ser(tão) do mato, por Alice Lutz

Passei o ano de 2019 inteirinho tentando encontrar uma forma de me mudar pro sítio. Mais especificamente, uma forma de conseguir levar minha pequena empresa para se basear de uma vez por todas no lugar em que ela nasceu e, ao mesmo tempo, não falir.

O sítio São José foi comprado por meu pai em 2009. Fica em uma região com a qual temos relação íntima e extremamente amorosa. Fomos criados nesta serra e, desde pequenos, tanto ele (meu pai) e meus tios quanto eu, meus irmãos e meus primos, vivemos esse pedacinho gigante de vida abundante na Terra.

Quando resolvi começar a Maravilhas São José, muito do que me estimulava era de fato compreender a força da comida. Nela reconheço, talvez, a única ferramenta capaz de provocar comoção na humanidade a ponto de gerar mudanças reais e uma oportunidade de futuro. E assim, aproximando o consumidor dos nossos cultivos no sítio, abusamos de memórias amorosas, ancestrais e de Brasil profundo para criar receitas que festejam essa força que a comida carrega em ser ferramenta de transformação. Usando alimentos de forma integral e privilegiando os não convencionais, procuramos estimular e despertar o interesse pelo consumo de nossa biodiversidade e pela cultura do não desperdício.

Os anos foram passando, e junto com o tempo, revoadas em meu peito me levaram cada vez mais para o lado que eu até então considerava ser o outro, o “quando der”. E assim, nos últimos três anos venho me dedicando integralmente a cozinhar, plantar e a tentar – com palavras, conversas, produtos e pratos – apresentar essa língua que é comum a todos nós chamada comida. 

Virei o ano de 2019 para 2020 muito preocupada com questões financeiras e de saúde. No fundo do meu peito, sentia a mesma força que outrora me tirou do trilho que eu levava profissionalmente, o audiovisual, e me levou para o mato e para a cozinha. Desta vez, a força me implorava que eu estivesse mais na terra. Era como um chamado mesmo. 

A virada do  ano foi em família na fazenda. O vírus já se espalhava pelo vento no mundo, e nós ali vendo estrelas brilhando no lugar de fogos, rezamos por mais um ano que viria. Nenhum de nós fazia ideia do que viveríamos. As notícias começaram a chegar, mas era naquele lugar, onde a mente faz parecer ser tudo distante.

Passei o mês de janeiro no sítio, cuidando de tudo, planejando plantações e dando espaço para aquela força que tão forte me cutucou o ano inteiro gritando: “vem pro mato!” Foi aquele início de ano tipicamente brasileiro, quando tudo só acontece de fato depois do carnaval. E quando percebi já estávamos em março. E junto dele, os casos de Covid no Brasil. E nós em quarentena.

A primeira semana foi uma loucura pra mim. Meu braço direito e esquerdo na operação de cozinha não podia vir trabalhar. Clientes me procuravam desesperados querendo comida. Pairava no ar uma energia de fim de mundo. Respirei, rezei e trabalhei. Sozinha por dias na cozinha, me adaptando a máscaras o tempo inteiro. A cada tempero que ia pra panela, eu conversava e rezava. Coloquei todo o meu amor e força naqueles preparados da semana. Foram mais de 150 refeições em dois dias de entrega. E adoeci. 

Meu pai, grande parceiro da vida e em todo o trabalho com o sítio, disse que tinha chegado a hora. Precisávamos ir pro mato. Sexta-feira de Oxalá. Limpei a cozinha toda, esvaziei as geladeiras, arrumei estoques. Uma chuva torrencial se anunciava na cidade do Rio de Janeiro. Às sete e meia da noite, cruzamos a Linha Vermelha sem nem sentir o cheiro marcante da Baía de Guanabara. Para pessoas do axé, como eu, sexta-feira é dia de usar roupa branca para saudar Oxalá. E meu pai, por conviver muito comigo, também se habituou ao costume. No porta-malas,  livros, leituras amigas, abraços últimos de frases que sentimos saudade antes de adormecer. O carro estava lotado. E nós em um impulso de fuga por proteção. Só queríamos chegar em casa, e mais do que nunca tínhamos certeza que era lá, no mato. 

Então, sofremos um acidente na estrada em chuva. Nos confundimos com a lama. Seguimos firmes e sem um arranhão.  Foi assim que cheguei para  fazer do mato minha casa. E aqui escolhi montar meu altar.

Nos primeiros meses, idas esporádicas à cidade entregavam ainda um pouco de trabalho em forma de comida. Mas confesso que foi perdendo o sentido para mim. Os primeiros meses foram muito difíceis. Os caminhos eram enevoados, uma sensação de paralisia. Como fazer para seguir? 

“Cuidado, Alice, que essa ai cutuca!”. Ou seja, tem espinho. Frases como essa, ditas pelo Estevão que trabalha aqui com a gente, revoavam em mim. Todo o nevoeiro de minha mente parecia ali encontrar o sol de céu azul. O mato estava me cutucando. Corujas passaram meses com a gente, sempre às quatro da tarde, cantando e conversando. Bambus me embalavam o sono e me ensinavam a beleza de envergar e não se deixar quebrar. Fui aprendendo nos detalhes sobre o Tempo, não só o que passa, mas em especial o que conta, o que carrega, o que transforma. Como por exemplo, entender que na semeadura por sulco na horta, o melhor jeito de cobrir é com um ramalhete de folha dura. Que feijão é como cabelo quando se deseja cortar, só se planta na lua que cresce. 

Permitir-se o tempo de observar e aprender com o que se planta e colhe em alimento é, sem dúvida, a maior transformação e o caminho mais sincero que encontrei. Pensamentos passaram a virar ação e muitas planilhas de Excel. Em paralelo, reformamos um puxadinho para que eu tivesse casa pra morar, e ao lado uma cozinha onde pudesse trabalhar. 

No dia a dia, a lida da roça, a descoberta de novas espécies que eu nem sabia que tínhamos aqui… Cada mês que passava, uma nova fruta surgia no pé. E meu catálogo ganhava mais linhas em caminhadas com Estevão e João pelo sítio. Uvaia, grumixama, cereja-do-rio-grande, urucum, pitanga, acerola, banana, maracujá, abacaxi, jambo, caju, dendê, cravo, coco, goiaba, cabeludinha, manga, seriguela, limões variados, laranjas infinitas e um mundo todo de frutas, raízes, folhas e matos de comer que me preenchiam como se eu estivesse há anos em jejum. 

Todos os livros que devorei por me sentir perdida no início se enraizaram na terra formando a mais bela biblioteca que eu já pude conhecer. Leituras de corpos, perfumes, texturas, cores, formas, reações, tempos, detalhes, transformações, defesas, metamorfoses, encontros, misturas. Nunca experimentei literatura tão potente sobre o tempo quanto essa de viver em meio, viver sendo menor que o entorno, viver entendendo a importância de observar e aprender com o outro que é tão diferente de você, mas é quem te permite a vida. 

Aqui cultivamos em maior quantidade feijões, milho crioulo colorido ‘comum’ e de pipoca, gergelim, inhame, aipim e abóbora. Desde o momento em que comecei a testar o cultivo de gergelim, eu desejava me conectar ao trabalho do quilombo Kalunga. No norte de Goiás, abriga cerca de oito mil pessoas em mais de 20 comunidades e 42 localidades, formando assim a maior comunidade remanescente quilombola do Brasil. Consegui comprar pouca quantidade, mas o suficiente para iniciar o plantio e testes com ele por aqui. Lindamente, crescem hoje em nossas várzeas, fortes e robustos , misturados aos outros cultivos. O gergelim é muito usado nos cultivos agroecológicos tradicionais, a exemplo do praticado pelos Kalunga. Ele opera como ferramenta biológica para evitar pragas como as formigas. Por aqui, respeitando a sabedoria ancestral dos que cuidam com a gente dos cultivos, adotamos o sistema MILPA. Um modelo milenar dos povos nativos da América Latina que combina o cultivo de milho, feijão e abóbora. Plantados no mesmo espaço, o milho fornece estrutura em corpo para os feijões escalarem, enquanto estes fornecem nitrogênio ao solo para nutrir o milho, e em contrapartida a abóbora protege as raízes do milho.

Interferindo minimamente neste consórcio de cultivos tão bem sucedido, introduzimos na safra 2020/2021 novos testes, incluindo o gergelim e o inhame na combinação. Com menos de dois meses de plantio, o resultado é belíssimo. Complementam-se e crescem lindos ocupando o espaço das várzeas, que também são abrigo de variadas espécies em seu entorno, como urucum, bananeiras, jamelão, eucalipto, embaúba, feijão guandu, pitangueiras, acerolas, entre outras. 

Tomates explodem os beirais da nova horta que habita o meio de uma de nossas plantações; maracujás se enroscam em bananeiras; vagens trepam na cerca. Espaços novos só de temperos e ervas medicinais começam a ficar cada vez mais poderosos, recheados de macassá, poejo, manjericão, boldo, cidreira, malva, dandá, assa-peixe, elevante, cordão de São Francisco, fedegoso, quebra pedra, serralha, tanchagem, hortelã, menta, melissa, alecrim, orégano, tomilho, losna… e eu poderia passar a vida escrevendo espécies e mais espécies que ou plantei ou brotaram, e cada uma a seu jeito contribui para que sigamos. 

O céu prega sustos como o gelo que outro dia caiu. Começo a trabalhar para voltar a entregar minha luta e trabalho em comida. Junto ao Natal, tomei coragem de testar a nova operação que hoje começa na semente que ponho no chão, na água que rezo para cair do céu com doçura e amanhã levantar em folha a brotar pelo chão. Esta parte é um sonho realizado. 

Na panela, conto essa história que é bordada da cantiga sábia de meus mais velhos, do giro que dei na estrada, do rasgo que a faca faz em minha mão e da enxadada que abre buraco no chão. Cada semente espalhada pela terra parece ter feito ponto firme em minha construção.

O ano de 2020 se encerra com as mesmas inseguranças relacionadas a finanças e saúde. Tem muitos lados dificílimos dessa história que não contei aqui. 

Mas tenho em mim certezas robustas. É preciso tornar a terra acessível para ver o novo caminho brotar. O que falta não é a comida, mas sim o interesse institucional e sistêmico de que todos se relacionem e tenham acesso a ela. A arte de plantar e se relacionar com o tempo deveria ser matéria obrigatória para a formação de todo ser humano.

A oportunidade de futuro está muito mais em nossas mãos – ou melhor, em nossos pratos – do que de fato imaginamos. Só se colhe comida quando na terra se planta alimento, e não mercadoria. Se vai dar certo, eu não sei. Mas agora tenho uma vontade maior de tentar fazer dar certo. Este ano me mostrou, mais do que nunca antes em minha vida, que quem planta, colhe. A comida é nossa língua mais poderosa, é ela quem carrega a força do novo tempo. 

*Alice Lutz é cozinheira, agricultora, empreendedora, diretora e eterna aprendiz à frente da marca Maravilhas São José (@maravilhas.saojose).

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