2020: o ano da fome pandêmica

Adriana Salay para Food Forum

Entrevistamos Adriana Salay, historiadora e doutoranda em História Social pela USP, que há anos se dedica aos estudos sobre a fome e os hábitos alimentares dos brasileiros. Mas é da presença diária nas ruas da periferia de São Paulo, alimentando uma horda de famintos e desempregados, que ela testemunha in loco o agravamento do horror que a pandemia causou nas populações mais vulneráveis. 

Junto com o marido Rodrigo Oliveira, chef do restaurante Mocotó, Adriana criou o projeto Quebrada Alimentada, que distribui cerca de 200 marmitas por dia e 220 cestas básicas por mês desde março. Debruçada sobre a obra de Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome” e ex-presidente do Conselho Executivo da FAO, ela descreve o encontro devastador da fome endêmica com a fome epidêmica no Brasil de 2020;  disseca a fome em todas as fases do processo, em suas dimensões emergenciais e estruturais; e fala sobre os caminhos urgentes para evitar uma tragédia social ainda maior na década que começa essa semana.

“A fome não é fruto da pandemia, mas se agrava com ela e precisamos levar em consideração que estamos vivendo uma crise de fome.”

Adriana Salay

A sua compreensão sobre a fome no Brasil, sobretudo no caso de São Paulo/Guarulhos, é muito empírica. Você é historiadora, estuda, reflete e, ao mesmo tempo, também está na rua, na linha de frente agindo. Como você descreve este encontro da fome endêmica com a fome epidêmica no país em 2020? 

Eu diria que primeiro minha compreensão da fome foi teórica, depois empírica. Quando comecei a estudar a temática no doutorado que desenvolvo na área de História, eu não poderia imaginar que teríamos essa crise em 2020. Eu lidava diariamente com relatos de casos de fome no Brasil, era uma rotina diária lendo casos e mais casos na imprensa e em outros lugares de pessoas que passavam fome e suas histórias. Relatos muito contundentes de fome, de famílias que matavam seus próprios filhos para não os verem sofrer, cenas de canibalismo de exceção, crianças que brigavam para comer as próprias fezes, entre outros. Toda essa leitura vem com a base de Josué de Castro, pioneiro nos estudos sobre a fome no Brasil. Foi ele quem trouxe essas categorias – fome endêmica e fome epidêmica. Fome endêmica é a fome no curso regular da sociedade, fome causada pelas desigualdades sociais e que pode ser vista em qualquer momento nas periferias. A fome epidêmica é a causada por uma crise, uma mudança no curso regular das coisas que agrava a fome endêmica e traz para um lugar de fome famílias que até então não estavam ali. E foi com essa bagagem que eu vi a pandemia se desenrolar em 2020. Nós sabíamos que era uma crise e que poderia agravar a situação de fome que já vinha crescendo desde 2016. Não dava para ficar apenas nos livros, era preciso fazer algo, por menor que fosse, para minimizar a dor daquelas famílias que conseguimos alcançar. E foi nesse contato direto com pessoas em vulnerabilidade social que entrei em contato com a fome empiricamente. Mas acredito que seja importante levar em consideração uma terceira compreensão de fome, talvez efetivamente empírica, aquela das pessoas que tiveram essa experiência e que não é a mesma do debate científico.  

O que mudou na geografia da fome desde que Josué de Castro publicou o livro homônimo em 46?

Como em muitos outros processos históricos, tivemos mudanças e continuidades. Entre as mudanças, podemos falar que as crises de fome acontecem com menor frequência no Brasil. No ano em que Josué defendeu sua tese, 1932, houve uma seca imensa no semiárido. Uma onda de retirantes procurava as cidades litorâneas ou mais ao Sul para fugir desse flagelo, muitas famílias sucumbiram no caminho. O governo da época criou campos de concentração para conter essas pessoas, mas as condições ali eram péssimas e o sofrimento não findava. Hoje não vemos mais cenas como essa, de crise aguda que estão também descritas no livro “Geografia da Fome“. Mas continuamos a ser um país imensamente desigual e essa é a principal causa da fome. A fome estrutural continua presente, mesmo que tenha diminuído com algumas políticas públicas importantes como transferência de renda e o programa de cisternas.

Ainda nesta perspectiva… A fome é um processo. Não só um processo histórico, como também um processo que vai se estabelecendo e se esgarçando no cotidiano da pessoa. 

Exato. A gente pensa na fome como um fato, mas ela é um processo pois vai gradativamente se instalando em uma casa. Primeiro começa a insegurança de achar que não vai ter dinheiro o mês todo para comprar comida. Isso já tem um peso psicológico importante. Depois vem a diminuição da variedade da comida dentro de casa, mais tarde a quantidade, e por fim passa-se a pular refeições e então vem um dia sem comer nada. Nessas etapas primeiro vem a mulher, que é a gestora do alimento da casa na maioria dos lares, depois adultos e por último as crianças. A EBIA (Escala Brasileira de Insegurança Alimentar) é baseada em perguntas que mapeiam esse processo. Todos nós deveríamos conhecer a EBIA para saber o que insegurança alimentar moderada significa. Esse termo comunica muito pouco para o público que não está acostumado a essa terminologia. Mas ele quer dizer que, por exemplo, pode-se ter pulado refeições nessa casa por falta de acesso à comida. Agora eu pergunto: uma família que só almoça por falta de opção não está passando fome?

Estamos em 2020. Como você contextualiza a involução e a evolução da fome no Brasil  ao longo dos últimos 20 anos? 

Tivemos avanços muito importantes ao longo desses 20 anos. Muitas críticas podem ser feitas aos governos anteriores, mas o fato é que saímos do mapa da fome organizado pela FAO pela primeira vez na história em 2014. Esse feito está relacionado, entre outros fatores, aos programas que foram gestados ou intensificados durante essas gestões, como o Bolsa Família por exemplo. Mas o fato do Brasil ter saído do mapa da fome não tira a fome do Brasil, é preciso entender o que isso significa. A FAO só considera fome a insegurança alimentar grave e aí você tira dessa conta uma faixa importante da população que experiencia a fome mas não é considerada nominalmente assim por não ser tão intensa, como o exemplo da pergunta anterior onde mencionei a família que só almoça. Também é preciso levar em consideração que sair do mapa da fome significa que menos de 5% da população está em situação de fome no Brasil. Só que desde 2016, com a crise política e econômica instaurada, nossos índices aumentaram e a POF (Pesquisa de Orçamento Familiar) de 2018, lançada em 2020, mostrou que a fome aumentou consideravelmente no Brasil. Já havíamos voltado ao Mapa da Fome, ainda não oficialmente pela FAO, em 2018 pelo que o IBGE contatou nessa pesquisa e isso foi antes da pandemia. Se a gente considerar só o corte estabelecido pela FAO, 5% da população, no caso brasileiro corresponde a população de Portugal. Então é preciso assumir que temos muito trabalho a fazer apesar dos progressos que tínhamos alcançado.  

E agora, nesse momento, como você descreve o processo da fome ceifando o indivíduo e a família? Como se dá essa dinâmica de subtração gradual da comida dia após dia? 

Como vivemos em uma sociedade monetarizada, onde o dinheiro que traz acesso ao alimento, a falta de renda é o principal gerador de fome no país. Já vínhamos de uma crise econômica, com o crescimento expressivo do trabalho informal e esse ano vimos essa crise explodir. Com isso, muitas famílias perderam a renda e entraram em uma situação de fome que se dá como a escala da EBIA menciona, tratada na questão anterior. Durante as entrevistas que realizamos no projeto Quebrada Alimentada, para um documentário em parceria com a produtora Bufalos, ouvimos relatos, por exemplo, de uma mãe que antes tinha um emprego informal e que com a pandemia perdeu toda a renda. Ela vive com três filhos e o auxilio emergencial era quase inteiramente gasto no aluguel. Sem saber dessa escala, ela nos contou todo o processo da fome – primeiro a insegurança, depois ela perdeu a variedade, depois a quantidade. No fim ela já tinha deixado de comer e os filhos estavam se alimentando apenas de arroz. A fome não é fruto da pandemia, mas se agrava com ela e precisamos levar em consideração que estamos vivendo uma crise de fome. É importante nomear assim para darmos os endereçamentos certos para o tratamento desse problema. 

Como você avalia a atuação das três esferas de poder contra a fome durante a pandemia?

Foi aquém das possibilidades que tinham. O auxílio emergencial decidido no legislativo foi importante para a contenção da crise e agora possivelmente vamos sentir os efeitos da sua extinção. Importante lembrar que o governo federal queria um valor de R$200,00 como auxílio emergencial e foi o legislativo, pela pressão da oposição, que chegou ao valor de R$600,00, que sabemos ser insuficiente para alimentar uma família durante o mês. Tem uma outra face importante da pandemia e atuação pública que é a merenda escolar e a produção agrícola e que poderia ter sido manejada melhor. Com o fechamento das escolas, muitos agricultores que tinham sua produção direcionadas para a merenda deixaram de ter suas produção comprada. As escolas estaduais e municipais são pontos muito potentes de contato com as famílias e poderiam ter sido usadas para manter o escoamento desses alimentos, mantendo a renda do agricultor e a alimentação das crianças. O Ministério Público teve uma vitória recente importante nesse sentido na cidade de São Paulo, mas  a prefeitura está com muita dificuldade de implantar as cestas.    

O governo federal se legitima, entre outras coisas, por narrativas negacionistas. Entre elas, a de que não existe fome estrutural no Brasil. Que desdobramentos e retrocessos isso pode trazer no combate à fome no Brasil nos próximos anos, mesmo que haja troca de poder em 2022? 

Se o problema não existe, ele não precisa ser tratado. Por isso que os nomes importam tanto, porque eles têm implicações práticas, não apenas epistêmicas. Se esse presidente diz que não tem fome, então ele não precisa fazer nada a respeito. O que o resultado da pesquisa de doutorado tem mostrado é que foi justamente o surgimento da noção de fome estrutural, principalmente na primeira metade do século XX, que trouxe uma série de políticas públicas de combate a ela. Por isso, o primeiro passo é assumir que a fome existe. A negação desse problema só vai fazê-lo crescer e deixar um país ainda mais imerso na crise em 2022. 

Você integra o Quebrada Alimentada e o Gente Nasceu para Brilhar. Vocês já sentiram algum tipo de censura a esse tipo de mobilização? E como você enxerga o papel e as atribuições da sociedade civil neste contexto?

As manifestações sobre as duas ações foram majoritariamente positivas e as críticas que chegaram fazem sentido em existir apesar de não tirarem o saldo do esforço de tantas pessoas envolvidas. A primeira, bem frequente no Quebrada Alimentada, é sobre o desvio da marmita ou da cesta básica que distribuímos para venda. Como em qualquer projeto, acontece em maior ou menor grau o desvio de função, mas isso não tira o saldo imensamente positivo, ao meu ver, das centenas de famílias alimentadas. O segundo é que as ações não vão mudar a realidade. De fato, elas são emergenciais e por isso estão aí para conter uma crise. Como dizia Betinho, quem tem fome tem pressa e mesmo para uma revolução precisamos estar alimentados. É importante sempre lembrar que é papel do Estado garantir alimentação adequada e saudável e o papel da sociedade civil é cobrar esse direito e se organizar para que ele seja garantido. Estou o com Emicida, ‘tudo que nóis tem é nóis’.

Quais as ações do Quebrada Alimentada específicas para este fim de ano? 

Não montamos nenhuma ação de fim de ano que difere do que estamos fazendo que é distribuir marmitas diariamente e cestas básicas e de vegetais mensalmente. Nosso foco hoje é garantir periodicidade e constância para ter o maior fôlego possível.

E quais as maiores dificuldades que vocês enfrentam? Como enxerga a atuação, a manutenção e os desafios da iniciativa em 2021?

É justamente manter o fôlego. No começo recebemos muita ajuda e conseguimos atingir muitas famílias. Hoje estabilizamos o número de famílias, 250, e o desafio será manter o fôlego em 2021 já que o custo é significativo e as doações caíram muito.  

Segundo um relatório recente da FAO, a fome pode atingir 67 milhões de pessoas na América Latina em 2030. 20 milhões a mais do que em 2019. Estes números não incluem ainda os impactos da pandemia. Como você enxerga este prognóstico, e que medidas prioritárias (e tangíveis) seriam necessárias para atenuar este cenário absolutamente devastador?

O prognóstico é subdimensionado já pelo corte do que a FAO considera fome, como mencionei em uma questão acima. Quem trata muito bem da questão é o geógrafo José Raimundo Ribeiro. Precisamos tratar do fenômeno em todas as fases do processo em suas dimensões emergenciais e estruturais. Para aplacar a fome das famílias é importante manter o auxílio emergencial, usar as escolas como caminho para alimentar as crianças através da compra da agricultura familiar e vacinar a população para que possamos voltar sem mortes. Ao mesmo tempo é fundamental políticas públicas de combate à desigualdade social como a reforma agrária que ainda é tratada como tabu e nunca foi levada a cabo nesse país.

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